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Entrevistas

Autor Júnior Barbosa Data 01/07/2021 09:32

Com carreira na Europa, brasileira agora é gerente de equipe francesa

Capa da notícia - Com carreira na Europa, brasileira agora é gerente de equipe francesa
Keylla Ramos, Béziers Angels, voleibol francês, brasileiros pelo mundo
Béziers Angels, clube de destaque na França, tem uma brasileira “no comando”. A ex-jogadora Keylla Fabrino Ramos, que atuou nas duas últimas temporadas profissionais como capitã da equipe, agora está nos bastidores como uma das dirigentes. Mesmo com a mudança de carreira, a ex-levantadora segue em busca de títulos, agora fora das quatro linhas. Ao Melhor do Vôlei, ela falou com exclusividade como foi sua trajetória até chegar aqui.
 
O esporte começou na vida de Keylla aos 11 anos. “Eu jogava no colégio. Era o típico caso onde a professora vê uma menina magrinha, alta e fala: E aí, não está a fim de jogar vôlei? Então, foi assim. Com 12 anos, já estava em campeonatos estaduais do Rio de Janeiro. Sou de Niterói e atuava no Miraflores, que hoje é Niterói Vôlei Clube. Lá, fiz boa parte da minha base, mas passei pelo Flamengo, Fluminense e Grajaú. Aos 17 anos, saí do Brasil e vim para a Europa”, lembra.
 
Na época, o convite surgiu porque o treinador do Miraflores recebeu uma proposta de Portugal e chamou Keylla e outras três atletas. “No total, foram 15 anos como profissional, passando também por ligas da França, Alemanha, Suíça e Chipre.”
 
Desde então, Keylla aprendeu a conviver com a saudade da família, que permaneceu em Niterói. “Por conta do calendário, sempre ficava nove meses no clube e outros três no Brasil de férias. Nunca houve tanto problema, até porque com a chegada da tecnologia, facilitou bastante. No primeiro ano em Portugal, ainda mandava cartas porque era caro a ligação. Ligava uma vez por semana. Depois que chegaram os smartphones e a comunicação ficou melhor, graças a Deus.”
 
Foto: Arquivo pessoalLigas x Holofotes
 
Isso é bem relativo. Bastante, na verdade, porque eu acho que está mais ligado à mídia brasileira. A mídia europeia cobre bastante os atletas que estão no exterior e isso é algo que vem melhorando no Brasil, sem dúvidas. Eu também entendo, porque aí há muitos esportes. É normal que o foco fique nacional, mas acredito que poderia ser melhor e mais intenso o segmento de atletas fora. Não é algo pequeno, que não mereça notoriedade. Conheço vários atletas que tiveram carreiras grandiosas, homens e mulheres, e que não aparecem como os que jogam em times intermediários da Superliga. Acho que é uma pena. Muitos chegam na Europa achando que será mais fácil e descobrem que o buraco é bem mais embaixo.
 
Estar fora de casa
 
Sem dúvida, os maiores desafios são nos primeiros anos. A adaptação com o clima, a comida, de língua… Eu tive a sorte de estar nas primeiras temporadas em Portugal, numa época que a liga abraçou muitas brasileiras. Quando fui para outros países, veio a questão da cultura e do idioma. Por um lado, é difícil. Por outro lado, só agrega. Eu posso dizer que hoje falo quatro, cinco línguas e devo isso ao esporte. Infelizmente, a educação que a gente recebe no Brasil não é no mesmo nível que as pessoas recebem aqui. Na escola, os alunos aprendem mesmo a falar outros idiomas e já saem prontos para o mercado de trabalho. Tive a sorte de estudar em locais bons, mas os meus pais não tinham condições de pagar um curso de inglês. A minha base foi boa e mesmo assim não me sentia preparada para falar em outra língua. No vôlei, acabei aprendendo. Quem aproveita essas oportunidades, ganha um legado para a vida toda.
 
Destaque
 
Na América, a mentalidade esportiva é mais apaixonada e vibrante. Aqui, eles são muito mais frios e calculistas. Então, não é à toa que, quando chegamos, para eles é um espetáculo ver um atleta sul-americano jogando. A gente transborda emoção e isso é uma coisa que o atleta precisa aprender a administrar. Nossa emoção está em 100 e os outros com 10. Buscando um equilíbrio para que não seja um problema, mas um fator positivo.Propostas do Brasil
 
Minha referência era a Superliga, mas nunca fui da seleção carioca ou uma jogadora de destaque na minha geração, até porque foi uma época com muitos talentos, a geração 86… Era muita concorrência e desde o início encontrei respeito e retorno financeiro aqui. Encontrei o meu lugar. Jogar no Brasil não dependia apenas da minha qualidade, mas também de contatos, só que eu não era muito conhecida. Sem internet, as informações eram muito limitadas e chegavam muito pouco em outros lugares. Assim, vontade de voltar eu nunca tive porque sempre fui muito bem recebida e fiz a opção, a cada ano, de me manter aqui.
 
Memórias
 
Aqui na França, vivi os meus melhores momentos. Isso foi o que pesou para que eu decidisse permanecer. Fui vice-campeã da Copa duas vezes, em 2013 e 2016. Estive no Top 5 da liga três ou quatro vezes. A experiência de estar sempre jogando os campeonatos europeus (Challenge, CEV Cup e Champions League) é muito bacana. Por ser no meio da temporada, a gente tem a oportunidade de viajar para outros países e encarar equipes diferentes. Foram inúmeros países e é um prazer enorme para a carreira de um atleta. Cheguei às quartas de final na CEV, perdendo para um time russo que tinha o treinador Karpol (Nikolay), uma referência da minha geração. Na Challenge, me aposentei como semifinalistas. Por causa da Covid-19, o campeonato foi suspenso. Uma pena porque a gente tinha muita chance de ser campeão.
Novo desafio
 
Já estava no Béziers há dois anos como capitã. Ao mesmo tempo, fazia faculdade de marketing à distância, até de uma instituição brasileira. O clube tem um projeto, em andamento, para ter um ginásio próprio em 2023. É algo grande e que exige bastante trabalho e preparação. Parece longe, mas passa muito rápido. Tinha uma vaga no marketing aberta e, com a minha formação, poderia atuar na área. Por falar outros idiomas e a minha experiência como atleta, contato com dirigentes, com a imprensa, consegui me encaixar. A princípio, seria apenas a gerência do marketing e de patrocínio, mas também assumi a gerência esportiva. Pensava em jogar ainda mais um ano, mas essa oportunidade apareceu. Fazer essa transição e ter logo um emprego bacana não é fácil, mas eles me deram essa chance. Foi algo que me desafiou e motivou. Estou muito feliz por ter tomado essa decisão.
 
Temporada 21/22
 
Fomos vice da liga, perdemos a semifinal da CEV para o Galatasaray e paramos na semi da Copa da França. Queremos manter o mesmo nível e buscar títulos, que é o que falta. Jogaremos a Champions League pela terceira vez e isso exige muito trabalho. Estamos entre os 20 melhores da Europa e queremos fazer algo a mais. Sem dúvidas, passar da fase de grupos e chegar aos playoffs é a nossa meta, fazendo com que o Béziers Angels avance de nível. Por 14 anos, o RC Cannes manteve a hegemonia na França. Hoje, disputamos esse espaço com o Mulhouse, atual campeão. O orçamento deles é maior do que o nosso e isso faz diferença. Com o novo ginásio, brigar em igualdade e manter a constância que o time vem tendo nos últimos 10 anos.
 
Reforços
 
Depois de atuar na primeira edição da liga profissional dos Estados Unidos, a levantadora canadense Brie King vai jogar no Béziers. Além dela, a ponteira peruana Angela Leyva, que estava na liga russa, também pode ser anunciada em breve. Uma das remanescentes é a central colombiana Yeisy Soto. Já do Brasil, chegam a ponteira Maiara Basso e a central Linda Jéssica
 
 

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